o sinal abriu mas eu fingi que não, sequer engatei, porque o velhinho terminava de atravessar com seu passo lento, lento. Já escolado de tanto enfrentar motoristas impacientes, porém, ele percebeu o meu respeito e agradeceu acenando a mão direita meio sem jeito, como que involuntariamente. depois, fixou o olhar na placa do golzinho até que eu passasse (vi pelo retrovisor). guardou o número para jogar no bicho.
(e nem é pretensão minha, não. é só ficção, mesmo.)
Publicado em 27 de março de 2008 às 21:05 por adri
ela acordou, e ele já no sofá da sala, contando os dedos do pé, depois os da mão, como a conferir se a inconsciência noturna não o havia aleijado. chamou-o para o café que acabara de coar, já direto na xícara mesmo, uma para cada um. "não põe tanto açúcar" costumava ser a primeira palavra do dia, dele para ela. mas ela sempre punha.
aposentados que eram, foi cada um inventar pequenos trabalhos para alimentar o dia. ela aproveitou o tempo bom para lavar roupa, e pegou também algumas peças que ainda estavam limpas, mas que era bom lavar. experimentou deixar algumas ensaboadas sobre o tanque, para ver o que aconteceria se secassem. de repente, passaria a ferro e usaria assim mesmo. depois era só enxaguar que estava limpa novamente.
ele pegou uma vassoura, foi varrer o quintal. incomodava-o alguns riscos sobre o piso, marca de móvel pesado arrastado sem cuidado, mas isso a vassoura nunca tirava. desta vez investiu sobre o piso com um martelo. ela ralhou ao ver o que ele fazia: "tá levantando um pó danado, não vê?".
ele quedou sentado no chão com o martelo sobre a perna, a saborear um momento que lhe veio à tona: quando trabalhava na construtora, sempre guardava um pedaço do piso ou do azulejo ao derrubar uma parede. e naquela época se derrubava muita parede de tijolo deitado e concreto bom para construir finas paredes para famílias instáveis. um dia, ele juntou todos os cacos e os assentou nos muros e na fachada da casa, desenhando do jeito mais bonito. olhou ao redor com orgulho. o que era mesmo que ia fazer?
procurou pela mulher e por alguns minutos desesperou-se diante de sua ausência. depois, conformado, sentou-se no degrau diante do portão, a contar as árvores, os galhos e as casas que conseguia distinguir até o final da rua. de repente ela já estava ali, tentando abrir passagem diante dele para poder entrar com as compras. levantou e foi sentar-se diante da tevê. "como era mesmo que ligava?", perguntou, e mais uma vez ela lembrou-o de que o aparelho estava quebrado. ficou a imaginar cenas e ouvir os sons da rua. imaginou um operário que vai atravessar a rua e.
foi à cozinha beliscar alguma coisa antes do almoço. comeu pão, da fatia que havia esquecido mordida, e tentou engolir uma última gota de café frio. a mulher estava lavando roupa, então voltou ao quintal. no caminho, pegou o radinho de pilha e pôs-se a ouvir uma antiga toada, daquelas que costumava ouvir nos bailes. a pilha acabou, e tentou identificar alguma coisa inteligível no silêncio do aparelho. mas a fome era muita.
pediu para a mulher fazer o almoço e aguardou sentado. ela pegou a panela com arroz da geladeira, pôs um pouco de água e aqueceu-a no fogão. cortou pepino, acrescentou à salada de beterraba do dia anterior, e fritou a carne, esquecendo-se do tempero. ele reclamou na hora de comer, mas comeu mesmo assim, colocando um pouco de sal.
enquanto ele foi tirar um cochilo, ela cuidou da louça. ensaboou tudo, encheu a pia d'água e imergiu copos, pratos, panelas, talheres. no final, tudo ficou meio engordurado, mas pôs para secar mesmo assim. afinal, não ia gastar mais água para lavar tudo de novo.
resolveu deixar mesa, pia e fogão do jeito que estavam, e foi à casa da vizinha reclamar que a vida hoje é muito dura, veja você que eu tenho saúde, mas hoje em dia se come qualquer coisa. a vizinha limitava-se a assentir com um menear de cabeça. de repente uma jovem passou por ela, deu boa tarde. sem reconhecer a neta da vizinha, ignorou o cumprimento. a menina comentou sobre a estranha morte da senhora da rua de baixo. parece que foi causada por um pedacinho de osso de frango engolido sem nem perceber. ela retrucou que osso de frango tem que pôr na canja ou dar pro gato, cachorro não pode. a menina lançou-lhe um olhar debochado. ela não gostou e foi embora.
na saída, ainda ouviu a vizinha dizer "liga não, ela ficou assim por causa da idade". resolveu que ali também não voltaria mais. essas vizinhas mais jovens estavam todas aprendendo coisas erradas com as próprias filhas, ao invés de ensinar a usar saia e fazer crochê.
em casa, encontrou o marido com o radinho colado no ouvido, mas sem som nenhum. "estou ficando surdo", ele disse. ela fingiu que não ouviu e foi dar água para as plantas. parou na metade para folhear uma revista velha de fofocas e novelas, falava que o joão pedro ia largar da paula para ficar com a irmã. achou um absurdo. "ainda bem que a tevê não pega, não vou precisar ver esse desaforo", comentou.
à noite, para jantar, tirou as formigas que cutucavam o arroz na panela, jogou o óleo da carne por cima, pôs sal, pimenta e acrescentou um pouco de chuchu picado bem fininho. deixou fritar, queimou o fundo. eles comiam muito pouco, mesmo, então não havia problema. era só jogar um pouco de água quente.
escureceu, mas, habituados que estavam à posição dos móveis na casa, nem acenderam luz nenhuma. ela foi deitar-se primeiro, e custou a pegar no sono. o olhar da menina (quem era ela, mesmo?) não lhe saía da mente, mas não conseguia lembrar por quê.
Publicado em 11 de março de 2008 às 17:41 por adri