Fabrício Carpinejar
Eu busco o Vicente na escola na terça e sexta-feira, para passarmos a tarde juntos. Mesmo que tenha trabalho, ele me acompanha e pontilhamos as tarefas com programas divertidos como cinema, futebol e brincadeiras de ocupar toda uma peça da casa. Nos outros dias, ele fica no contraturno na escola. Almoça com os colegas, tem aulas de inglês, de espanhol e de música. É um acordo amoroso.
Evidente que os dias mais alegres são aqueles que estamos acompanhados, para mim e para ele, compensando a dedicação disciplinada da semana.
Armei de fazer uma surpresa e apareci de imprevisto na quarta para levá-lo. Ele estava gripado, com uma tosse de corredor sem porta. Arrisquei um mimo. Escorei o rosto numa desculpa, como é natural de pai bobalhão e sentimental.
Nas tardes de contraturno, ele não desce com a mochila, já que permanecerá no prédio até as 17h. Curiosamente, eu o vi descendo a escada em fila indiana com a turma com sua pasta verde de sapo. É engraçado o guri caminhando com aquele peso de cadernos e exercícios, indo de um lado para outro, como um escoteiro ensolarado.
Logo que o abracei, ele não sugeriu espanto. Perguntei se a mãe havia avisado que iria buscá-lo.
- Não, pai.
- Mas por que você desceu com a mochila se sabia que não viria? Não estava combinado, repliquei.
- Na segunda, na quarta e na quinta, tenho 20% de esperança de que venha me buscar. Sempre desço com a mochila e espio para o banco que costuma sentar. Não custa nada, pai, carregar a mochila e a esperança.
Eu mordi as mangas da camisa, como sempre faço quando umedeço as pupilas. Para ocupar a motricidade. Não cogitava que desfrutaria essa conversa com meu filhote de 6 anos.
- Mas você não fica triste quando não venho?
- Não, porque eu sei que não virá, a esperança é outra coisa.
- O que é?
- É acreditar que 'você vem quando não vem'.
Esforcei-me para determinar onde surgiu a esperança dele. De quem tinha herdado: de mim ou da mãe?
E lembrei que era dos dois. Da gestação. No momento em que ele nem era nascido. Avançávamos na madrugada, girávamos horas alisando a barriga, prevendo o que esse guri poderia gostar da vida, tecendo planos, apresentando as travessuras e delicadezas de sua irmã Mariana, trocando os móveis de lugar, conversando com ele no viva-voz que só existe no ventre. Acelerando o que cada um acreditava, descrevendo filmes e evocações da infância, sondando os lugares que ainda iríamos viajar. Nem aí para besteira de que ele não ouvia; claro que ouvia. Cada chute dele ou contração mais aguda, compreendíamos como resposta. Um código morse que emparelha os ouvidos. Um diálogo espírita que formou a alma do menino.
Para nascer, ele somente seguiu a nossa voz. Facilitamos.
E hoje vivemos seguindo a dele.
Publicado na sua coluna "Primeiras Intenções"
Revista Crescer, São Paulo, Página 46, Número 176, Julho de 2008