aí ela ficou tão comovida com o olhar daquele vira-latas manco ali na esquina, pedindo comida, que não resistiu e o levou para casa. deu banho, comprou cinco quilos de ração e mais um pratinho de plástico. deu nome, bastante carinho. ele abanava o rabo, vinha ao encontro, brincava. no quinto dia, estava abrindo o portão e o cão correu, correu, correu. até foi atrás, tentando segui-lo de carro. nem sinal. dia desses ela viu seu vira-latas manco, na mesma esquina, o olhar suplicante por comida, e teve vontade de chorar.
Publicado em 29 de junho de 2005 às 14:24 por adri
ele tinha cinco anos e já se habituara àquele ritual de morte. primeiro, a notícia do corpo novo invadia a cidade feito leito de rio. depois, a romaria até A árvore. as crianças, numa brincadeira de pique, eram as primeiras. paravam, olhavam, e, por alguns segundos, faziam silêncio. chegavam os adultos e suas exclamações de rotina. comoção. voltavam todos para casa, os parentes carregando o corpo. mas, naquele dia, seu pai. era seu pai, ali, assassinado. dependurado na árvore.
Publicado em 28 de junho de 2005 às 09:44 por adri