por mais que eu já não o aguarde com tanta intensidade, por mais que, com o passar dos anos, ele pareça mais e mais desnecessário, todo ano meu aniversário chega.
entre os 25 e 26 anos, eu ganhei uns 4 quilos e perdi uns 4 quilos. fiz tanta coisa que agora parece pouca, mas também vivi coisas que agora parecem muito. tá, a frase foi besta, mas o que eu quero dizer é que foi, mais este ano passou como teria passado de qualquer forma, independente de mim.
então, apenas para não deixar mais um dia da minha vida passar em branco, eu quero reunir amigos e demais interessados na gelobel, amanhã, a partir das 19h. com o tempo, a gente deveria começar a dar valor às pequenas coisas. eu não estou nessa fase ainda; as coisas que valorizo são tão grandes que, se não comparecerem amanhã, deixarão um vazio imensurável.
em tempo: eu nasci às 7h35min da manhã de um 12 de setembro muito bonito. por isso, quem quiser pode desejar-me os parabéns ainda hoje, hehehe.
Publicado em 12 de setembro de 2005 às 16:28 por adri
e delas sobra o silêncio. a gente recolhe as lembranças mais preciosas e descobre que eram as mais cotidianas. da minha bisavó, que morreu semana passada, sobrou o dia em que lhe entreguei um pacote e não sabia explicar, em japonês, que aquilo era um presente. até que ela exclamou “ah, 'purezente'!” e nós rimos juntas de coisas distintas. no casamento de uma neta, ano passado, reuniram-se seus dez filhos. ela, que já não via, não falava, não ouvia e quase não se movia, chorou. de que forma terá sentido a presença de todos?
morreu o padre carmelo e, embora ele tenha realizado a minha primeira comunhão e crisma, quando soube eu me lembrei - com carinho - de seus avisos intermináveis ao final da missa.
não chorei quando perdi meu avô - ele estava hospitalizado e me implorava por um cigarro toda vez em que ia visitá-lo. ah, como eu queria ter-lhe dado esse último cigarro! de seu velório, eu guardo o esforço da minha avó em colocar no morto o relógio de pulso. de seu enterro, os vinte e seis tijolos e meio necessários para isolá-lo definitivamente do nosso mundo.
também não tive por que chorar pela bisavó - ela tinha 103 anos.
a gente sabe que as pessoas vão morrer, e sabe que precisa ir guardando seus pedaços pra que o vazio seja um pouco menor. daí as pessoas morrem, o peito dói a ausência, e o amor, triste assim, ganha seu significado etéreo.
Publicado em 30 de agosto de 2005 às 11:24 por adri
Publicado em 23 de julho de 2005 às 20:24 por adri
hoje eu cheguei da escola e minha mãe tinha morrido. daí falei com minha avó: a sua filha foi embora, vó, você já pode morrer em paz. não houve lágrimas, porque já as esgotamos faz muito tempo, na época em que o acidente transformou mamãe numa violeta que nunca mais floresceria. algum tempo depois, meu pai morria em novo acidente. em sua condução embriagada, levou junto a nova família: meu primo e sua mãe. papai fôra morar com eles quando soube que sua esposa não teria mais serventia pra nada. sobramos eu e vovó, a cuidar de nossa plantinha. aí eu chego em casa hoje e minha mãe morta. falo com minha avó e ela responde: fui eu, minha querida. pra que você viva em paz.
Publicado em 18 de julho de 2005 às 15:08 por adri
o mundo gira ao avesso e ninguém percebe. o dia fez-se noite há tempos, o homem não se sustenta sobre suas quatro patas. animais racionais são os piores, têm a razão das atrocidades que podem cometer. a criança viveu uma vida inteira em uma semana - não suportamos a soberba de sua inocência e a matamos.
lucas era seu nome. (mais um) enviado de deus com a missão de fazer os homens encararem sua loucura, de lhes implorar que parem de canibalismos. pobre lucas, nós não compreenderemos sua mensagem. vamos crucificar seus pais, garoto. nilson e any devem sangrar até morrer; vamos empalá-los, e que eles morram bem devagar. vingados, satisfeitos, voltaremos cada um ao seu próprio ânus. até que venham outros lucas. desculpe, cara. não podemos nos perguntar o porquê das coisas porque temos tanto medo, o mundo anda muito violento! não há mais salvação, lucas, nem precisava ter-se dado ao trabalho de vir aqui tentar nos ensinar alguma coisa. nós só sabemos colher. as sementes, que se plantem sozinhas. sim, sabemos onde isso vai dar. acaba-se a terra, colhemos cimento - no final, haverá apenas carne putrefata, mesmo, fazer o quê. fazer o quê, lucas?
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Publicado em 13 de julho de 2005 às 11:19 por adri
Composição: Ricardo Breim e Luiz Tatit
Foi tanto amor
E começou pulsando em mim
Um dia não, um dia sim
E em pouco tempo, toda hora era hora
E os segundos, um por um
Eram pra nós
A nossa vez
Eternidade que jamais satisfez
Foi tanto amor
Foi tanto amor que transbordou
Deixou a casa e se espalhou
Tomou as ruas e atraiu todos olhares
E os ouvidos, um por um
Mostrando assim
A hora e a vez
Intensidade sem qualquer sensatez
Quem nunca viu amor ao vivo veio ver
Quem tinha visto não sabia o que dizer
Quanto mais via mais queria renascer
Só por amor nada mais só por amor
Quem não amava há muito tempo se empolgou
Quem tinha muito o que fazer não trabalhou
Toda São Paulo que não pára então parou
Só por amor nada mais só por amor
Foi tanto amor
E no entanto nem parecia
Em poucos dias, para nós
Da paz ao caos
Era um segundo só
Era apostar
Na nossa vez
No risco, no cio, na embriaguez
Foi tanto amor
E foi tanto que nem cabia
E noite e dia, para nós
Do lar ao bar
Era um segundo só
Mas mesmo assim
Quanta avidez!
Nos gestos, nas cenas que a gente fez
E era um tal de ver pra crer
De olhar pra nós e emudecer
De achar que isso é que é viver
E de sentir enfim o que é o prazer
Até pra quem tudo é pornô
Naquele instante se encontrou
Toda cidade se integrou
E aplaudiu o amor que transbordou
é a música que eu dedico a você (apesar do clima angustiado que ela tem), hoje. porque eu a ouvia e pensava imagina se cabe um amor assim no mundo! - e não cabe mesmo. mas descobri que é possível vivê-lo (um amor exatamente esse da música) mesmo assim. feliz aniversário.
Publicado em 13 de julho de 2005 às 09:51 por adri
aí ela ficou tão comovida com o olhar daquele vira-latas manco ali na esquina, pedindo comida, que não resistiu e o levou para casa. deu banho, comprou cinco quilos de ração e mais um pratinho de plástico. deu nome, bastante carinho. ele abanava o rabo, vinha ao encontro, brincava. no quinto dia, estava abrindo o portão e o cão correu, correu, correu. até foi atrás, tentando segui-lo de carro. nem sinal. dia desses ela viu seu vira-latas manco, na mesma esquina, o olhar suplicante por comida, e teve vontade de chorar.
Publicado em 29 de junho de 2005 às 14:24 por adri
ele tinha cinco anos e já se habituara àquele ritual de morte. primeiro, a notícia do corpo novo invadia a cidade feito leito de rio. depois, a romaria até A árvore. as crianças, numa brincadeira de pique, eram as primeiras. paravam, olhavam, e, por alguns segundos, faziam silêncio. chegavam os adultos e suas exclamações de rotina. comoção. voltavam todos para casa, os parentes carregando o corpo. mas, naquele dia, seu pai. era seu pai, ali, assassinado. dependurado na árvore.
Publicado em 28 de junho de 2005 às 09:44 por adri
não, ele disse, no desespero de quem se sabe prestes a cometer o absurdo. recuou não dois, mas cinco passos contados - o bastante para desalinhar-lhe a silhueta.
condenado mas lúcido, caminhou de volta ao quarto, pôs no bolso o porta-retratos da família feliz - ele, esposa, a filha de quase doze. e sumiu. no mundo. o que, em seu caso, era três vezes pior que a morte.
passou o resto dos dias (dia após dia) penitenciando-se por aquela noite em que, ao dar com a filha nua no chuveiro, teve vontade de.
Publicado em 03 de maio de 2005 às 13:53 por adri
ele chega no horário combinado e eu mal saí do banho. e ele está com uma das dez camisas-pólo que tem, seis brancas e quatro pretas. nem reparo que a preta, de hoje, é nova. ele me dá uma rosa amarela quando a vermelha murcha, e reagir como se fosse a primeira rosa em minha vida já requer algum esforço. saímos, bebemos com os amigos. uma recém-conhecida paquera-o descaradamente e todo mundo percebe – menos eu. também não vejo se está bebendo muito, ou rápido, ou sem vontade.
às vezes ficamos séculos em silêncio. às vezes brigamos por questões essenciais que, minutos depois, eram uma grande bobagem, isso sim. mas permanecemos chateados a tarde inteira. eu falo demais. e reclamo que ele fala muito pouco. daí, bem no meio de uma história que ele me conta, eu já perdida em devaneios.
ele, o teimoso. eu, a indecisa. nós, os chatos. exigimos tanto um do outro, falhamos tanto um com o outro. por isso, cada movimento nosso requer estratégia – expectativas em ataque e defesa numa partida de xadrez.
e assim conduzimos o relacionamento adiante: construindo uma rotina, enchendo os encontros de momentos banais, para então encontrarmos nesses pequenos deslizes a substância essencial ao amor.
Publicado em 29 de abril de 2005 às 20:29 por adri