ela fechou os olhos para melhor visualizar a cena, que começava com uma mão sobre a outra. depois, segurou firme a mão da filha, e um ódio ancestral tomou seus braços com tamanha sede, que o gesto carinhoso inverteu seu sentido. apertou a mão da garota, ela gritou e gritou e o som lhe ecoou atrás da espinha dorsal. já não havia mais saída, agora estava feito, e soltá-la seria autorizar que ela também lhe abandonasse um dia. não. queria que parasse de gritar, queria não estar mais ali, mas ao mesmo tempo era a sua chance de se vingar do mundo, de mutilar o próprio útero, de morrer sem precisar se matar. sem pensar em nada, mas jamais tão humana como naquele momento, foi que ela deu não uma, não duas, mas dezoito pancadas com a tábua de cortar legumes. primeiro na cabeça, pregando-a no chão para jamais fugir. depois, bateu em várias partes do corpo, virando a tábua, espalhando sangue pela cozinha, e só parou quando já não tinha mais forças sequer para se manter de pé. adormeceu abraçada ao corpo da menina, a sua menina, que tinha cortado o dedo depois de quebrar mais um copo.
Publicado em 30 de abril de 2008 às 20:55 por adri