e delas sobra o silêncio. a gente recolhe as lembranças mais preciosas e descobre que eram as mais cotidianas. da minha bisavó, que morreu semana passada, sobrou o dia em que lhe entreguei um pacote e não sabia explicar, em japonês, que aquilo era um presente. até que ela exclamou “ah, 'purezente'!” e nós rimos juntas de coisas distintas. no casamento de uma neta, ano passado, reuniram-se seus dez filhos. ela, que já não via, não falava, não ouvia e quase não se movia, chorou. de que forma terá sentido a presença de todos?
morreu o padre carmelo e, embora ele tenha realizado a minha primeira comunhão e crisma, quando soube eu me lembrei - com carinho - de seus avisos intermináveis ao final da missa.
não chorei quando perdi meu avô - ele estava hospitalizado e me implorava por um cigarro toda vez em que ia visitá-lo. ah, como eu queria ter-lhe dado esse último cigarro! de seu velório, eu guardo o esforço da minha avó em colocar no morto o relógio de pulso. de seu enterro, os vinte e seis tijolos e meio necessários para isolá-lo definitivamente do nosso mundo.
também não tive por que chorar pela bisavó - ela tinha 103 anos.
a gente sabe que as pessoas vão morrer, e sabe que precisa ir guardando seus pedaços pra que o vazio seja um pouco menor. daí as pessoas morrem, o peito dói a ausência, e o amor, triste assim, ganha seu significado etéreo.
Publicado em 30 de agosto de 2005 às 11:24 por adri
“ ETERNIDADE
Ele reviu-se:
não era mais
nem corpo
nem sombra
nem escombros.
Como foi isso?
Tudo irreal:
um barco
sem mar
a boiar.
Ele sentiu-se:
recomeçava.
Vivera
morrendo
numa estrela.
Ele despiu-se
de quê?
De tudo
que amara.
Surdo-mudo
cegara.
Agora vê.”
JORGE DE LIMA, “Anunciação e Encontro de Mira-Celi”.
*
tanta, imensa, congestionante saudade. Esse amor etéreo.