ele chega no horário combinado e eu mal saí do banho. e ele está com uma das dez camisas-pólo que tem, seis brancas e quatro pretas. nem reparo que a preta, de hoje, é nova. ele me dá uma rosa amarela quando a vermelha murcha, e reagir como se fosse a primeira rosa em minha vida já requer algum esforço. saímos, bebemos com os amigos. uma recém-conhecida paquera-o descaradamente e todo mundo percebe – menos eu. também não vejo se está bebendo muito, ou rápido, ou sem vontade.
às vezes ficamos séculos em silêncio. às vezes brigamos por questões essenciais que, minutos depois, eram uma grande bobagem, isso sim. mas permanecemos chateados a tarde inteira. eu falo demais. e reclamo que ele fala muito pouco. daí, bem no meio de uma história que ele me conta, eu já perdida em devaneios.
ele, o teimoso. eu, a indecisa. nós, os chatos. exigimos tanto um do outro, falhamos tanto um com o outro. por isso, cada movimento nosso requer estratégia – expectativas em ataque e defesa numa partida de xadrez.
e assim conduzimos o relacionamento adiante: construindo uma rotina, enchendo os encontros de momentos banais, para então encontrarmos nesses pequenos deslizes a substância essencial ao amor.
Publicado em 29 de abril de 2005 às 20:29 por adri