a forma inusitada com que os originais porcamente datilografados chegaram até mim leva a crer que se trata de um texto ainda inédito de joão apolinário.
para quem não sabe, joão apolinário foi um dos maiores prosadores que londrina já viu - e não reconheceu. companheiro de anacleto ternura, gervásio maria e salustião caputo na lendária revista “estrume”, lançou apenas um livro em vida, “me joga no cocho e me lambe”. apesar da história confirmada pelos jornais de que seu livro fôra plagiado por seu amigo anacleto em um roteiro de filme, fontes seguríssimas garantem que isso não passou de armação. joão apolinário quis pegar carona na fama do amigo e este concordou em confirmar a história do plágio em troca de mil latas de cerveja.
o título do conto, “o cabo da vassoura ou rabo quente mata a gente”, estava totalmente riscado a caneta. não se sabe se ele chegou a encontrar um título melhor. então vai com esse mesmo. eis:
O CABO DA VASSOURA OU RABO QUENTE MATA A GENTE
Meteu fundo mesmo, como jamais fôra capaz antes, e como nenhum homem que ali entrou jamais imaginaria (porque ela era extremamente apertada). Quente, apertada e melecosa. Era preciso uma atenção extrema para não gozar logo, para se manter ali no meio da caldeira, era preciso provar que era ele o desbravador ali, e – agora o impossível – que atravessar o útero zombando desse órgão que é o primeiro berço do homem, ah, isso era só uma transa de fim-de-tarde ocioso.Embora o gozo não tivesse nada de extraordinário, seu pau começou a sentir que era ali, dentro daquele útero quente, que ele queria estar. Pensar naquela buceta, ou antes, naquele útero era o mesmo que ligar o interruptor – era de uma só vez, de imediato que ele se acendia. E todo o tesão passou a se concentrar naquela imagem mental que ele fazia, desde adentrar um buraco nojento e quase fétido para chegar ao seu destino final, seu lar, sua toca firme e indestrutível.
Sexo já não tinha mais sentido. Era um pra baixo e pra cima, subindo e descendo, muito exercício para pouco resultado; passou a ter preguiça de sexo. Queria era entrar e ficar. Se realizava os movimentos selvagens da cópula, era apenas para ver se ia mais e mais fundo. Não ia.
Egoísta, não percebeu que aquele sexo já não tinha mais sentido era para ela. “Me deixa gozar o mundo em paz” foram as últimas palavras que ouviu daquela voz cheia de ciscos. Depois, viriam só maldições, xingamentos, e alguns sorrisos irônicos e sádicos.
Mas nela estava a única forma possível de se fazer o amor, o sexo sem culpas, e com a mãe disfarçada de outra mulher. A redenção de seus problemas freudianos, enfim. Enlouqueceu.
Enlouqueceu e, munido de uma vassoura de piaçava, começou a varrer o chão à sua frente, para onde quer que ela fosse. Ela xingou, quebrou a vassoura, chutou-o o quanto pôde. Guardou urina em um copo descartável e jogou em sua cabeça. Quando já não distinguia mais as faculdades mentais do homem com a atividade de seus intestinos, ela desistiu. Riu, zombou. Ia para terrenos enlameados em dia de chuva, andava três passos para a frente, dava meia-volta, dois para trás, um para a direita, dez para a esquerda. E ele seguia como podia, sempre varrendo. Ela foi caminhar descalça sobre brasa, sobre a água, sobre um monte de merda. E a vassoura dele se acabou.
Não se sabe desde quando ele passou a varrer (na verdade, mover o cabo bastante puído de uma vassoura para os lados, numa simulação teatral) também dentro da casa dela. Dormiam no mesmo quarto, ela o despertava para seguirem o ritual de suas loucuras, e a convivência tornou-os tão íntimos que ele adivinhava as direções dela. Ou ela seguia as intuições dele, nessas andanças sem rumo nem razão.
No exato dia em que a primeira transa completaria um ano, o casal foi encontrado morto dentro da casa dela. Ele com um corte em cada braço, do pulso ao cotovelo, o canivete sobre uma das mãos (e o cabo da vassoura na outra mão). Ela, com cinqüenta e oito facadas na região do útero, estava grávida de quatro meses.
Publicado em 13 de janeiro de 2005 às 20:54 por adri