que coisa de criança, que nada

igor, meu sobrinho esperto de 5 anos, esteve aqui esta semana. tadinho, teve uma jeca e só no último dia pudemos brincar como de costume - ou seja, até a (minha) exaustão. pula daqui, corre até ali, é carrinho batendo, faz-de-conta, bolha de sabão. em determinado momento, ralhei com ele, coisa pequena. com cara de quem diz o óbvio, me veio com essa:
"você não pode me dizer isso porque você não é mãe, é tia."
"e daí que eu sou tia, ué?"
"tia não sabe tudo. só mãe sabe tudo."

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igor não gostou de vir ao meu apartamento novo, não quis voltar mais. não gostou do sinal sonoro que o portão e a porta do prédio fazem quando abertos. aquele som irritante e sirênico, que vai crescendo a níveis enlouquecedores enquanto você não fecha a porta. tentei explicar que era por causa da segurança, mas, para uma criança habituada a liberdades, todo esse barulho não fez o menor sentido. e é claro que igor está certo.


 

sangue - de volta à série é isso

ela fechou os olhos para melhor visualizar a cena, que começava com uma mão sobre a outra. depois, segurou firme a mão da filha, e um ódio ancestral tomou seus braços com tamanha sede, que o gesto carinhoso inverteu seu sentido. apertou a mão da garota, ela gritou e gritou e o som lhe ecoou atrás da espinha dorsal. já não havia mais saída, agora estava feito, e soltá-la seria autorizar que ela também lhe abandonasse um dia. não. queria que parasse de gritar, queria não estar mais ali, mas ao mesmo tempo era a sua chance de se vingar do mundo, de mutilar o próprio útero, de morrer sem precisar se matar. sem pensar em nada, mas jamais tão humana como naquele momento, foi que ela deu não uma, não duas, mas dezoito pancadas com a tábua de cortar legumes. primeiro na cabeça, pregando-a no chão para jamais fugir. depois, bateu em várias partes do corpo, virando a tábua, espalhando sangue pela cozinha, e só parou quando já não tinha mais forças sequer para se manter de pé. adormeceu abraçada ao corpo da menina, a sua menina, que tinha cortado o dedo depois de quebrar mais um copo.


 

de mãe e filha

"mãe, por que você depositou dinheiro na minha conta de novo? já disse que eu preciso aprender a me virar sozinha", ela ralhou ao telefone, mas com tanto carinho na voz que à mãe só restou responder que tudo bem. para depois complementar: "prometo que esta é a penúltima vez".


 

foi jogar no macaco

o sinal abriu mas eu fingi que não, sequer engatei, porque o velhinho terminava de atravessar com seu passo lento, lento. Já escolado de tanto enfrentar motoristas impacientes, porém, ele percebeu o meu respeito e agradeceu acenando a mão direita meio sem jeito, como que involuntariamente. depois, fixou o olhar na placa do golzinho até que eu passasse (vi pelo retrovisor). guardou o número para jogar no bicho.
(e nem é pretensão minha, não. é só ficção, mesmo.)


 

os velhinhos

ela acordou, e ele já no sofá da sala, contando os dedos do pé, depois os da mão, como a conferir se a inconsciência noturna não o havia aleijado. chamou-o para o café que acabara de coar, já direto na xícara mesmo, uma para cada um. "não põe tanto açúcar" costumava ser a primeira palavra do dia, dele para ela. mas ela sempre punha.

aposentados que eram, foi cada um inventar pequenos trabalhos para alimentar o dia. ela aproveitou o tempo bom para lavar roupa, e pegou também algumas peças que ainda estavam limpas, mas que era bom lavar. experimentou deixar algumas ensaboadas sobre o tanque, para ver o que aconteceria se secassem. de repente, passaria a ferro e usaria assim mesmo. depois era só enxaguar que estava limpa novamente.

ele pegou uma vassoura, foi varrer o quintal. incomodava-o alguns riscos sobre o piso, marca de móvel pesado arrastado sem cuidado, mas isso a vassoura nunca tirava. desta vez investiu sobre o piso com um martelo. ela ralhou ao ver o que ele fazia: "tá levantando um pó danado, não vê?".

ele quedou sentado no chão com o martelo sobre a perna, a saborear um momento que lhe veio à tona: quando trabalhava na construtora, sempre guardava um pedaço do piso ou do azulejo ao derrubar uma parede. e naquela época se derrubava muita parede de tijolo deitado e concreto bom para construir finas paredes para famílias instáveis. um dia, ele juntou todos os cacos e os assentou nos muros e na fachada da casa, desenhando do jeito mais bonito. olhou ao redor com orgulho. o que era mesmo que ia fazer?

procurou pela mulher e por alguns minutos desesperou-se diante de sua ausência. depois, conformado, sentou-se no degrau diante do portão, a contar as árvores, os galhos e as casas que conseguia distinguir até o final da rua. de repente ela já estava ali, tentando abrir passagem diante dele para poder entrar com as compras. levantou e foi sentar-se diante da tevê. "como era mesmo que ligava?", perguntou, e mais uma vez ela lembrou-o de que o aparelho estava quebrado. ficou a imaginar cenas e ouvir os sons da rua. imaginou um operário que vai atravessar a rua e.

foi à cozinha beliscar alguma coisa antes do almoço. comeu pão, da fatia que havia esquecido mordida, e tentou engolir uma última gota de café frio. a mulher estava lavando roupa, então voltou ao quintal. no caminho, pegou o radinho de pilha e pôs-se a ouvir uma antiga toada, daquelas que costumava ouvir nos bailes. a pilha acabou, e tentou identificar alguma coisa inteligível no silêncio do aparelho. mas a fome era muita.

pediu para a mulher fazer o almoço e aguardou sentado. ela pegou a panela com arroz da geladeira, pôs um pouco de água e aqueceu-a no fogão. cortou pepino, acrescentou à salada de beterraba do dia anterior, e fritou a carne, esquecendo-se do tempero. ele reclamou na hora de comer, mas comeu mesmo assim, colocando um pouco de sal.

enquanto ele foi tirar um cochilo, ela cuidou da louça. ensaboou tudo, encheu a pia d'água e imergiu copos, pratos, panelas, talheres. no final, tudo ficou meio engordurado, mas pôs para secar mesmo assim. afinal, não ia gastar mais água para lavar tudo de novo.

resolveu deixar mesa, pia e fogão do jeito que estavam, e foi à casa da vizinha reclamar que a vida hoje é muito dura, veja você que eu tenho saúde, mas hoje em dia se come qualquer coisa. a vizinha limitava-se a assentir com um menear de cabeça. de repente uma jovem passou por ela, deu boa tarde. sem reconhecer a neta da vizinha, ignorou o cumprimento. a menina comentou sobre a estranha morte da senhora da rua de baixo. parece que foi causada por um pedacinho de osso de frango engolido sem nem perceber. ela retrucou que osso de frango tem que pôr na canja ou dar pro gato, cachorro não pode. a menina lançou-lhe um olhar debochado. ela não gostou e foi embora.

na saída, ainda ouviu a vizinha dizer "liga não, ela ficou assim por causa da idade". resolveu que ali também não voltaria mais. essas vizinhas mais jovens estavam todas aprendendo coisas erradas com as próprias filhas, ao invés de ensinar a usar saia e fazer crochê.

em casa, encontrou o marido com o radinho colado no ouvido, mas sem som nenhum. "estou ficando surdo", ele disse. ela fingiu que não ouviu e foi dar água para as plantas. parou na metade para folhear uma revista velha de fofocas e novelas, falava que o joão pedro ia largar da paula para ficar com a irmã. achou um absurdo. "ainda bem que a tevê não pega, não vou precisar ver esse desaforo", comentou.

à noite, para jantar, tirou as formigas que cutucavam o arroz na panela, jogou o óleo da carne por cima, pôs sal, pimenta e acrescentou um pouco de chuchu picado bem fininho. deixou fritar, queimou o fundo. eles comiam muito pouco, mesmo, então não havia problema. era só jogar um pouco de água quente.

escureceu, mas, habituados que estavam à posição dos móveis na casa, nem acenderam luz nenhuma. ela foi deitar-se primeiro, e custou a pegar no sono. o olhar da menina (quem era ela, mesmo?) não lhe saía da mente, mas não conseguia lembrar por quê.


 

tanto faz

tanto faz. não é assim, e assim mesmo a gente sempre faz do mesmo jeito. aí você olha bem, suspira e deixa. já que queimou um, queima tudo. é assim que a gente age: ah, agora já foi. agora vai assim mesmo. ninguém mandou. já que começou assim, agora não vamos mudar. já tá errado desde o começo, que se dane. já que tá ruim, serve qualquer jeito. já que queimou um, queima tudo. foi assim que o português, na história do fernando sabino, ao queimar o dedo fritando pastel, enfiou a mão inteira no óleo quente. e todo mundo disfarça e finge que não é a mesma coisa.


 

o meu melhor amigo

eu o amo cheia de dedos, como se deve amar alguém que não se quer machucar de forma alguma. como se deve preservar o verdadeiro amigo, eu o abandono por aí no mundo, sem enviar nem receber notícia. sem um telefonema sequer por milênios. e não percebo, dada a sua presença no meu cotidiano. ele comenta meus atos mais corriqueiros, eu sei - e ouço. ele me olha com a cumplicidade impossível que construímos quando eu faço uma traquinagem qualquer, quando eu gosto de cometer pecados - e vice-versa. e nós rimos. tudo isso sem uma só palavra, ele naquele universo que é outra cidade, eu neste meu - e nós em uma londrina de faz-de-conta, eternamente no calçadão da faculdade. nas noites de filmes, no vinho nas praças, na angústia que nunca passou.
ele fez aniversário semana passada, e eu sequer telefonei. falta minha. devo presentes, e devo principalmente um sinal, pequeno que seja, de afeto. devo muito da minha vida e do que sou. devo desculpas por minhas faltas. devo tanta coisa a ele, e vou guardando tudo, junto ao orgulho por ele ser tão ingenuamente bom e escrever tão talentosamente bem e ainda por cima ser meu amigo. um dia ainda pago, de alguma forma. por enquanto, vou apenas gastando-me nele - e o perpetuando em mim.
ele é único e insubstituível, embora neste texto ele sejam dois. (contradição que vai chateá-lo um pouco, mas eu sei que acabará aceitando. porque entre os quatro fantásticos o amor está tão consolidado que não há outro jeito senão aceitarmos o que somos e pronto.)


 

adolescência - é isso

o garoto despertava nele um desejo de crueldade. Porque era muito pequeno, indefeso e triste, mesmo sendo criança. E ele mesmo nada mais era que uma criança triste, indefesa, que se descobria medíocre. Por isso o incômodo.
uma tarde, chamou-o para brincar. Carrinho. Jogou o brinquedo longe, vamos apostar corrida. Gostou. Assim, de leveza, passaram a tarde.
Assim de repente notou as roupas do menininho molhadas de suor, a meia-luz do final da tarde e o pegou ali mesmo, dominado por um impulso cruel que na hora chamava-se desejo. Desejo, andrógino e nauseabundo - nauseabundo.
Ali, mesmo. Na rua. Não teve tempo de terminar: foi linchado - não sem antes ser penetrado de todas as maneiras e formas possíveis por populares ensandecidos e seus objetos.


 

aniversário

por mais que eu já não o aguarde com tanta intensidade, por mais que, com o passar dos anos, ele pareça mais e mais desnecessário, todo ano meu aniversário chega.
entre os 25 e 26 anos, eu ganhei uns 4 quilos e perdi uns 4 quilos. fiz tanta coisa que agora parece pouca, mas também vivi coisas que agora parecem muito. tá, a frase foi besta, mas o que eu quero dizer é que foi, mais este ano passou como teria passado de qualquer forma, independente de mim.

então, apenas para não deixar mais um dia da minha vida passar em branco, eu quero reunir amigos e demais interessados na gelobel, amanhã, a partir das 19h. com o tempo, a gente deveria começar a dar valor às pequenas coisas. eu não estou nessa fase ainda; as coisas que valorizo são tão grandes que, se não comparecerem amanhã, deixarão um vazio imensurável.

em tempo: eu nasci às 7h35min da manhã de um 12 de setembro muito bonito. por isso, quem quiser pode desejar-me os parabéns ainda hoje, hehehe.


 

é, as pessoas morrem

e delas sobra o silêncio. a gente recolhe as lembranças mais preciosas e descobre que eram as mais cotidianas. da minha bisavó, que morreu semana passada, sobrou o dia em que lhe entreguei um pacote e não sabia explicar, em japonês, que aquilo era um presente. até que ela exclamou “ah, 'purezente'!” e nós rimos juntas de coisas distintas. no casamento de uma neta, ano passado, reuniram-se seus dez filhos. ela, que já não via, não falava, não ouvia e quase não se movia, chorou. de que forma terá sentido a presença de todos?

morreu o padre carmelo e, embora ele tenha realizado a minha primeira comunhão e crisma, quando soube eu me lembrei - com carinho - de seus avisos intermináveis ao final da missa.

não chorei quando perdi meu avô - ele estava hospitalizado e me implorava por um cigarro toda vez em que ia visitá-lo. ah, como eu queria ter-lhe dado esse último cigarro! de seu velório, eu guardo o esforço da minha avó em colocar no morto o relógio de pulso. de seu enterro, os vinte e seis tijolos e meio necessários para isolá-lo definitivamente do nosso mundo.

também não tive por que chorar pela bisavó - ela tinha 103 anos.

a gente sabe que as pessoas vão morrer, e sabe que precisa ir guardando seus pedaços pra que o vazio seja um pouco menor. daí as pessoas morrem, o peito dói a ausência, e o amor, triste assim, ganha seu significado etéreo.


 

eu não só vi, como fotografei!

esta é para o claudinho, a jana garcia, o marcelo frazão, o tanga e para todos os que já sonharam com o yakult de litro!!


 

a filha - é isso

hoje eu cheguei da escola e minha mãe tinha morrido. daí falei com minha avó: a sua filha foi embora, vó, você já pode morrer em paz. não houve lágrimas, porque já as esgotamos faz muito tempo, na época em que o acidente transformou mamãe numa violeta que nunca mais floresceria. algum tempo depois, meu pai morria em novo acidente. em sua condução embriagada, levou junto a nova família: meu primo e sua mãe. papai fôra morar com eles quando soube que sua esposa não teria mais serventia pra nada. sobramos eu e vovó, a cuidar de nossa plantinha. aí eu chego em casa hoje e minha mãe morta. falo com minha avó e ela responde: fui eu, minha querida. pra que você viva em paz.


 

o mundo gira ao avesso e ninguém percebe. o dia fez-se noite há tempos, o homem não se sustenta sobre suas quatro patas. animais racionais são os piores, têm a razão das atrocidades que podem cometer. a criança viveu uma vida inteira em uma semana - não suportamos a soberba de sua inocência e a matamos. lucas era seu nome. (mais um) enviado de deus com a missão de fazer os homens encararem sua loucura, de lhes implorar que parem de canibalismos. pobre lucas, nós não compreenderemos sua mensagem. vamos crucificar seus pais, garoto. nilson e any devem sangrar até morrer; vamos empalá-los, e que eles morram bem devagar. vingados, satisfeitos, voltaremos cada um ao seu próprio ânus. até que venham outros lucas. desculpe, cara. não podemos nos perguntar o porquê das coisas porque temos tanto medo, o mundo anda muito violento! não há mais salvação, lucas, nem precisava ter-se dado ao trabalho de vir aqui tentar nos ensinar alguma coisa. nós só sabemos colher. as sementes, que se plantem sozinhas. sim, sabemos onde isso vai dar. acaba-se a terra, colhemos cimento - no final, haverá apenas carne putrefata, mesmo, fazer o quê. fazer o quê, lucas?

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Tanto amor

Composição: Ricardo Breim e Luiz Tatit

Foi tanto amor
E começou pulsando em mim
Um dia não, um dia sim
E em pouco tempo, toda hora era hora
E os segundos, um por um
Eram pra nós
A nossa vez
Eternidade que jamais satisfez

Foi tanto amor
Foi tanto amor que transbordou
Deixou a casa e se espalhou
Tomou as ruas e atraiu todos olhares
E os ouvidos, um por um
Mostrando assim
A hora e a vez
Intensidade sem qualquer sensatez

Quem nunca viu amor ao vivo veio ver
Quem tinha visto não sabia o que dizer
Quanto mais via mais queria renascer
Só por amor nada mais só por amor
Quem não amava há muito tempo se empolgou
Quem tinha muito o que fazer não trabalhou
Toda São Paulo que não pára então parou
Só por amor nada mais só por amor

Foi tanto amor
E no entanto nem parecia
Em poucos dias, para nós
Da paz ao caos
Era um segundo só
Era apostar
Na nossa vez
No risco, no cio, na embriaguez

Foi tanto amor
E foi tanto que nem cabia
E noite e dia, para nós
Do lar ao bar
Era um segundo só
Mas mesmo assim
Quanta avidez!
Nos gestos, nas cenas que a gente fez

E era um tal de ver pra crer
De olhar pra nós e emudecer
De achar que isso é que é viver
E de sentir enfim o que é o prazer
Até pra quem tudo é pornô
Naquele instante se encontrou
Toda cidade se integrou
E aplaudiu o amor que transbordou


é a música que eu dedico a você (apesar do clima angustiado que ela tem), hoje. porque eu a ouvia e pensava imagina se cabe um amor assim no mundo! - e não cabe mesmo. mas descobri que é possível vivê-lo (um amor exatamente esse da música) mesmo assim. feliz aniversário.


 

abandono

aí ela ficou tão comovida com o olhar daquele vira-latas manco ali na esquina, pedindo comida, que não resistiu e o levou para casa. deu banho, comprou cinco quilos de ração e mais um pratinho de plástico. deu nome, bastante carinho. ele abanava o rabo, vinha ao encontro, brincava. no quinto dia, estava abrindo o portão e o cão correu, correu, correu. até foi atrás, tentando segui-lo de carro. nem sinal. dia desses ela viu seu vira-latas manco, na mesma esquina, o olhar suplicante por comida, e teve vontade de chorar.


 

a árvore - é isso

ele tinha cinco anos e já se habituara àquele ritual de morte. primeiro, a notícia do corpo novo invadia a cidade feito leito de rio. depois, a romaria até A árvore. as crianças, numa brincadeira de pique, eram as primeiras. paravam, olhavam, e, por alguns segundos, faziam silêncio. chegavam os adultos e suas exclamações de rotina. comoção. voltavam todos para casa, os parentes carregando o corpo. mas, naquele dia, seu pai. era seu pai, ali, assassinado. dependurado na árvore.


 

primeiro texto da série é isso

não, ele disse, no desespero de quem se sabe prestes a cometer o absurdo. recuou não dois, mas cinco passos contados - o bastante para desalinhar-lhe a silhueta.
condenado mas lúcido, caminhou de volta ao quarto, pôs no bolso o porta-retratos da família feliz - ele, esposa, a filha de quase doze. e sumiu. no mundo. o que, em seu caso, era três vezes pior que a morte.
passou o resto dos dias (dia após dia) penitenciando-se por aquela noite em que, ao dar com a filha nua no chuveiro, teve vontade de.


 

deslizes

ele chega no horário combinado e eu mal saí do banho. e ele está com uma das dez camisas-pólo que tem, seis brancas e quatro pretas. nem reparo que a preta, de hoje, é nova. ele me dá uma rosa amarela quando a vermelha murcha, e reagir como se fosse a primeira rosa em minha vida já requer algum esforço. saímos, bebemos com os amigos. uma recém-conhecida paquera-o descaradamente e todo mundo percebe – menos eu. também não vejo se está bebendo muito, ou rápido, ou sem vontade.

às vezes ficamos séculos em silêncio. às vezes brigamos por questões essenciais que, minutos depois, eram uma grande bobagem, isso sim. mas permanecemos chateados a tarde inteira. eu falo demais. e reclamo que ele fala muito pouco. daí, bem no meio de uma história que ele me conta, eu já perdida em devaneios.

ele, o teimoso. eu, a indecisa. nós, os chatos. exigimos tanto um do outro, falhamos tanto um com o outro. por isso, cada movimento nosso requer estratégia – expectativas em ataque e defesa numa partida de xadrez.

e assim conduzimos o relacionamento adiante: construindo uma rotina, enchendo os encontros de momentos banais, para então encontrarmos nesses pequenos deslizes a substância essencial ao amor.


 

exclusivo: um conto inédito de joão apolinário

a forma inusitada com que os originais porcamente datilografados chegaram até mim leva a crer que se trata de um texto ainda inédito de joão apolinário.

para quem não sabe, joão apolinário foi um dos maiores prosadores que londrina já viu - e não reconheceu. companheiro de anacleto ternura, gervásio maria e salustião caputo na lendária revista “estrume”, lançou apenas um livro em vida, “me joga no cocho e me lambe”. apesar da história confirmada pelos jornais de que seu livro fôra plagiado por seu amigo anacleto em um roteiro de filme, fontes seguríssimas garantem que isso não passou de armação. joão apolinário quis pegar carona na fama do amigo e este concordou em confirmar a história do plágio em troca de mil latas de cerveja.

o título do conto, “o cabo da vassoura ou rabo quente mata a gente”, estava totalmente riscado a caneta. não se sabe se ele chegou a encontrar um título melhor. então vai com esse mesmo. eis:

O CABO DA VASSOURA OU RABO QUENTE MATA A GENTE

Meteu fundo mesmo, como jamais fôra capaz antes, e como nenhum homem que ali entrou jamais imaginaria (porque ela era extremamente apertada). Quente, apertada e melecosa. Era preciso uma atenção extrema para não gozar logo, para se manter ali no meio da caldeira, era preciso provar que era ele o desbravador ali, e – agora o impossível – que atravessar o útero zombando desse órgão que é o primeiro berço do homem, ah, isso era só uma transa de fim-de-tarde ocioso.

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um poema de verão


eu busco a tristeza como se tateasse à procura dos seios
tristeza: afastá-la seria me deixar morrer


Jukichi Yagi (1898-1927), in Mazushiki Shinto



Jukichi Yagi, apesar de ser um poeta bastante popular no Japão, lançou apenas um livro em vida, Aki no Hitomi. Mazushiki Shinto foi o primeiro de vários livros póstumos compilados de seus manuscritos. Cristão devoto, Yagi morreu de tuberculose aos 29 anos.


 
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